terça-feira, agosto 10, 2010

Madalena estava exausta de tanta espera. Deitou-se como quem nada queria, ofegante, e lá ficou. Passaram-lhe várias coisas pelos olhinhos cansados, mas ainda vivazes. Madá, como também era chamada, viu as pernas passando de um lado para o outro. Viu as crianças que vinham interagir, mas ela nem ligou. Madá viu o caminhar do sol no céu e pensou. Viu as estrelas aparecendo devagarinho, e os olhos dela, como que se juntando a elas, brilharam mais um pouco também. Madá viu riscos coloridos lá no alto, mas aí já não sabia se era verdade mesmo ou se era coisa da cabeça dela. Também viu borboletas que vieram lhe contar segredos por baixo das orelhas caídas. Madá ouvia, dizia que sim e as borboletas iam embora. E, aí, Madá deu à luz quatro filhotinhos.

quinta-feira, junho 03, 2010

Voltando para a frente

Nessa internet maluca, uma coisa leva a outra. Encontram-se pequenos textos, que levam a fotos de objetos, que levam a fotos de pessoas, que levam a páginas e mais páginas desses retratos, que levam aos amores da sua adolescência - nesse ponto vem um estranho sentimento de retorno no tempo que, na verdade, é uma espécie de avanço; deparar-se com registros antigos de momentos profundos é, ao mesmo tempo, retrabalhar tudo o que se viveu tendo por base essa mesma memória. É por isso que voltar no tempo não é, exatamente, voltar, mas sim relembrar com um algo a mais. As lágrimas e os sorrisos parece que adquirem outros sabores.

Não ficou claro? Pas grave. A internet é maluca mesmo.

sexta-feira, maio 07, 2010

Raquel

Raquel e eu não suportávamos o barulho da turma nas aulas de Português, especialmente Gramática. Tínhamos uma paixão por Gramática que não sabíamos explicar, ela adorava escrever e eu, também. Sentávamos lá na frente durante as explicações do professor e anotávamos com afinco. Os livros de Biologia e História guardam ainda anotações e desenhos dela. Para além das aulas, eram as risadas dela que preenchiam uma boa parte do meu tempo, risadas altas e de um jeito peculiar, típico dela, que ninguém imitava. Raquel já veio aqui em casa fazer trabalho, conversava com minha mãe, falava desinibida. Era engraçada e me fazia rir, e dividia comigo um sonho para o futuro: fazer faculdade de Jornalismo.

No último ano do Ensino Médio, uma decisão minha nos separou: decidi mudar de turma. Raquel ficou triste, outras pessoas também, mas ela chorou. "Quem vai estudar Português comigo, quem vai me ensinar?", e eu respondia "Não chore, eu ainda posso tirar suas dúvidas, não chore, não chore".

Raquel deixou hoje uma legião de amigos, de sonhos e vontades. Em mim, deixou as risadas, o humor, os sonhos compartilhados e as anotações nos livros que devem estar por aqui em algum lugar. Nesses detalhes que ela deixou e nas memórias que imprimiu, Raquel continua viva, crescendo para sempre.

segunda-feira, abril 12, 2010

Os bons ares



Da primeira vez que vi Buenos Aires ao vivo ela estava mergulhada no comecinho de escuridão que faz depois das 18h. O sol se escondia lá atrás do Obelisco e a gente se apertava no carro, com a mala no colo, olhando pelas janelas os prédios antigos, novos, modernos, limpos, rachados, as pessoas brincando nas ruas, ocupando o espaço público de um jeito que em Brasília não há. Víamos os tetos, as antenas, as cúpulas, as abóbodas. Buenos Aires é cheia de cúpulas e tem um cheiro. Talvez seja do gás que eles usam para tudo: mover os carros, os trens, aquecer as casas. Buenos Aires tem trens, metrôs e ônibus, quiosques, elevadores antiquíssimos e manuais, e todos eles têm o mesmo cheiro de gás. Mas a sorte é que os ventos vêm lá do norte, do noroeste e do nordeste e se cruzam na capital Argentina e levam o cheiro embora. Levam também a tristeza e a amargura da vida diária. No fim fica o doce de leite na pele dos argentinos, um açúcar que vai subindo pela nunca e se embaraça naqueles mullets, no rosto europeu dessa gente simpática e grosseira que a gente vai vendo por que está tão perto e tão longe de nós.

O segredo dos argentinos está no alfajor que eles comem relaxadamente nas ruas, cruzando uma faixa, nos lenços que eles ajeitam meticulosamente no pescoço e na Mafalda que eles têm lá em San Telmo. Eles podem sentar ao lado dela quando quiserem e reclamarem em ll chiado o quanto a inflação está irrefreável e quanto a Cristina Kirchner é embotocada. A Mafalda escuta tudo e continua sorrindo.

quarta-feira, março 03, 2010

alto retrato

(não é um autorretrato; está mais para uma provável descrição de algo que poderia vir a ser. é completamente da ordem da possibilidade)

Lê muito, porque gosta e carrega esse prazer desde a infância, prazer que virou um senso de obrigação muito forte e só se sacia à noite, depois de umas páginas viradas. Faz pouco a barba e pensa muito nas coisas futuras, e diz pouco, o que lhe custa às vezes remoer por dentro e envelhecer uns cabelos que lhe vão caindo, caindo, caindo. Planta raízes nas pessoas, conhece-as em semanas e anos depois ainda se lembra delas, o que significa que é emotivo, sensível, passional. Honesto e puro não é, o maior alvo de suas mentiras é a mãe, mas os psicólogos diriam que é um mecanismo de defesa, jornada do ser para se manter em privacidade. Em suas caminhadas solitárias, a pé ou dentro do carro mesmo, porque é muito solitário a maior parte do tempo, gosta de arrancar as folhas dos arbustos e sentir o cheiro de agrião que sai deles. Arranca também as pétalas do pensamento, uma a uma, até que a corola fique nua, exposta e frágil, o núcleo de tantos tormentos. Dói muito por dentro por pensar em muitas coisas ao mesmo tempo, mas gostaria de pensar sempre mais. Está sempre descobrindo uma palavra nova, ou então formando palavras que não existem (e melhor ainda é quando inventa palavras que já existem). De um modo ou de outro, estanca e repete a palavra nova baixinho, saboreando cada sílaba. É quando passa através do vento e retoma os ares.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Você de novo



Estava muito tedioso e quente aquela noite; saí para a rua, de chinelo, short curto e camisa sem manga. Não sou nenhum ator pornô em termos de corpo, tenho aquelas gordurinhas do lado etc. Você estava sentado no banco da pracinha, de pernas cruzadas, com um copo enorme de vidro na mão. Provavelmente fez como eu, saiu de casa para curtir a brisa noturna (estava quente mesmo assim, aliás). Você era muito elegante, cruzava as pernas num ângulo atraente, coluna reta, olhar pra frente, e um casaco preto de lã grossa em pleno verão. O líquido dentro do copo era escuro e tinha só um restinho, podia ser xarope de guaraná, suco de uva, coca-cola, chá preto, chá gelado. Mas com certeza era algo alcoólico porque você parecia sonolento; então guaraná com vodka, vinho, long island, cuba libre.

Depois houve um turbilhão de coisas e eu não sei o que veio depois do quê. Sei que houve dentes, gengivas, línguas, um tórax, pelos, hálito, bunda, roupa, grama, cimento. Acordei no dia seguinte com um machucado no pescoço SIM e não sei se foi culpa sua ou culpa de alguma outra coisa banal, tipo fazer a barba pensando no próximo livro a ler. Ah, e a gente conversou bastante antes de você se jogar em mim. Eu tentei me defender, lembro perfeitamente, só não sei se por causa do medo ou do meu amadurecimento precoce. No final eu não resisti e só restou a poça de suor ali no chão. Você era forte. Humm.

Lembrando agora, foi mesmo tudo igual a sempre, como sempre é. Todos os fantasmas se parecem e conhecer cada um a partir do 0 e constituir uma história dali é muito, muito trabalhoso e requer um silêncio que vem de dentro. Tem mais não.

ps.: saudade do tempo em que eu lia muito mangá. agora eu só leio coisas com citações.

domingo, janeiro 17, 2010

Santa Ceia

Mamãe, dos quadros religiosos que a gente viu ontem no museu, o que eu mais gostei foi o da Santa Ceia. Porque na Santa Ceia é todo mundo mal-educado, não tem essa coisa de garfo certo pra cada comida. A mesma coisa com os copos. Todo mundo pode comer com o garfo que quiser e com as mãos também. Na Santa Ceia tem umas pessoas levantadas, falando, apontando e mastigando de boca aberta. Já naquela época as pessoas comiam e falavam ao mesmo tempo. E apontavam também. Apontar não é falta de educação, pelo contrário, porque é assim que a gente pode entender quem foi o traidor e o culpado nessa história toda, não é mesmo? Sem falar que a Santa Ceia é muito diferente lá de casa, porque é você quem faz a comida e coloca no nosso prato. Na Santa Ceia quem faz tudo é o papai do céu. Maria, que não é pra gente saber que é ela porque ela está muito bem disfarçada, fica só olhando.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Aipo

(ah, é mesmo, eu tenho um blog)



A reunião começou muito bem, obrigado. A convidada da noite chegou trajando roupas que eram um nojo de ver: luvas de pelica, botas, meia-calça, brincos anéis e pulseiras, sapato de salto e um casaco de pele caríssimo que ela comprou no Canadá. A anfitriã a recebeu esquadrinhando aquele casaco, que a convidada arremessou em cima da mesa, sentando-se aparentando cansaço. A anfitriã ordenou que as empregadas servissem a ceia, mas fez questão de manter o casaco sobre a mesa.

- Bonito, seu casaco, disse a anfitriã, alisando-o.

- É de pele de esquilo, anunciou orgulhosa a convidada, retirando as luvas e examinando o brilho dos talheres. - Dizem que o brilho dos talheres é um sinal de status, poder e glória. Quanto mais brilho, mais luxo.

- Pele de esquilo?, continuou a outra, pensando em quantos esquilos teriam sido necessários para a confecção daquela peça valorisadíssima. Quantas árvores ocas teriam sido deixas naquele inverno, quantos amendoins sobrando no estoque, quantos parques vazios e despovoados, quantas crianças solitárias. O forro do casaco era supermacio e ela o acariciava mirando um ponto da mesa, perdida, como se afagasse a alma reverberante daqueles animais, que na memória da cultura ainda pulavam de galho em galho. Além disso, estava enfastiada porque havia comido uma manga no café da manhã e estava entrevada no intestino, produzindo gases e cheia de odores, o que a fazia endireitar a coluna e parecer muito séria, fina e acadêmica, como quem coloca Clarice Lispector na cabeceira e sofre de dores de cabeça tortuosas.

- Você é tão fina, comentou a convidada, tomando a sopa de entrada, que era um mexidão de batata baroa, mandioca, ervilha e aipo. - A sopa poderia ser boa, se não fosse esse aipo, mas, sabe, curti.

- Minhas empregadas não sabem fazer um aipo bom, retrucou a anfitriã, segurando com força a pele do casaco como se agarrasse o cabelo de um bandido. - Elas não sabem lavar, cortar, cozinhar... aipo é um mistério para elas - A convidada bocejou. - O aipo é um mistério da natureza. Exige cuidado, amor e dedicação. Tem que lavar em água de cheiro e cozinhar durante milênios, com muita paciência. Mas elas fazem com a bunda, e dá nisso.

A convidada pestanejou. - Q? Amiga, tem um pentelho na minha sopa.

- Se vira, ninguém mandou você trazer esse bando de esquilo pra dentro da minha casa, sua vaca.

- Sai daqui!

- SAI DAKI VC PORQUE AQUI EH A MINHA CASA, SUA LOK

A convidada foi expulsa com vassouradas, ainda com restos de aipo na boca, um hálito terrível. O casaco de pele acabou pendurado em um galho, no meio de um bosque, para que a natureza se lembrasse de como é sofrer nas mãos da indústria da moda.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Meu primeiro toco


É o que sempre disse: gente bonzinha só se *. Eu não deveria ter aceitado seu convite para uma conversa, não deveria ter começado com aquele email. Você soube arquitetar a conversa muito bem e eu nunca imaginei que a evasão custasse tanto jogo de cintura. Mas eu poderia ter aceitado, pelo gosto culposo da aventura. Poderíamos fingir que nos esbarramos lá por acaso. Entraríamos na mesma sala, e você gripado fungaria como uma porca enjaulada, o frio do ar-condicionado descendo espiralado como um perfume envenenado, querendo que nos agarrássemos. Agarraríamo-nos com as mãos, apenas, sua mão quente aquecendo a minha. Visualizaríamos essa cena em plano-detalhe, como um dos muitos planos-detalhes que transbordam nesse filme do Quebec, e como é impossível entender o sotaque do Quebec. Seria somente nesse ponto, porém, banhado pela luz da tela, que eu poderia perceber: nada disso aconteceu, eu não aceitei, eu recusei depois de muito pensar e o que me levou a sentar sozinho naquela sala foi o fato de eu ter dado meu primeiro toco.

terça-feira, novembro 03, 2009

Percebi

Eu percebi que você está me olhando, percebi sim. Não adianta fingir discrição, não adianta revezarmos os olhares, eu sei que você está me olhando e você sabe que eu estou correspondendo. Então vamos juntos voltar de Nárnia, vamos fingir que não há ninguém aqui e sair rolando por essas esteiras. Vou começar lambendo sua garganta, passar pela cabeça e ir descendo pelas costas suadas, porque sua camiseta grudou na pele e eu consigo enxergar os músculos com seus volumes e movimentos, a transpiração, vou rasgar todo esse tecido e guardá-lo para mim, vou apalpá-lo como se não houvesse amanhã, vamos aproveitar que ainda há tempo e que eu percebi.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Barulho de água

A lanchonete era velha, e havia ali muitos sinais que indicavam isso: a cerâmica anos 60, os copos americanos de vidro, as garrafas retornáveis, a televisão velha, os cabelos no ralo da pia e as manchas de gordura no teto acima dela, grandes manchas amareladas que iam grudando, grudando e já eram testemunhas vivas da história.

A lanchonete fazia-se ouvir bem de longe, e talvez aí encontravam-se os indícios mais óbvios do seu envelhecimento. Bastava ligar uma torneira ali dentro e um barulho de sucção vinha subindo pelos canos, chamando pela água; o ruído ia crescendo e crescendo, assomando como o suspiro, ou melhor, o grito, dos fantasmas das pessoas que já haviam pisado ali. Demorava até a água chegar, e, quando chegava, era com estremecimento e alarde. Fazia as paredes estremecerem, o chão, as estantes, os copos, os talheres, as pessoas, era uma loucura que obrigava a torneira ser desligada logo depois, só dava tempo de enxaguar um copo. E aí era preciso abrir a torneira de novo e ouvir os gritos de novo, e depois estremecer, fazendo a gente longe dali olhar para trás.

terça-feira, setembro 22, 2009

Voltar ao início

Essa coisa que vem crescendo no peito não é o que chamam de dúvida, é mais uma certeza acompanhada de uma pergunta sobre o que virá depois, mas é difícil termos certezas, o próprio mundo se encarrega de nos mostrar que elas são extremamente falíveis. De modo que é melhor dizer apenas que alguma coisa cresce, e assim voltamos ao início.

O que nos resta é a sensação de que não podemos pisar nada além da própria terra, que precisamos valorizar apenas isto que é o agora, e que inevitavelmente as coisas vão se desmanchando pelo ar como falecem as pessoas...

quarta-feira, setembro 02, 2009

O acaso existe

O que há de brilhante na obra deste homem é não só ter elaborado uma teoria sobre a mais fundamental e básica faculdade humana - o pensamento -, mas ter dado, a todos os que conhecem seus escritos, a oportunidade de encarar algo que poucos querem encarar: o acaso. O que Charles Peirce nos ensina em sua semiótica - a ciência geral dos signos - é que não podemos escapar do acaso; que ele, como signo, é bruto e físico, e responsável pelo começo de uma cadeia que é o próprio pensamento. Ele nos mostra que estamos sujeitos a todo tipo de eventualidade, e que ela nos leva a outros lugares.

Que não há conhecimento certo ou seguro, e que este deve ser analisado à luz dos fatos externos. Que é só tropeçando na eventualidade do real que experimentamos algo distinto de nossas expectativas. Que não podemos escapar à presença invariável da mudança. Que o homem, como signo, é um processo; não pode ter um sentido em si mesmo, isolado, pronto, se não estiver dirigido a outro signo; não se pode precisar seu começo ou seu fim, não pode estar "acabado", não pode ter uma história escrita nos Livros, no céu ou nas estrelas, não está destinado a ir a lugar algum. O que Peirce arremessa diante de nós é a dura verdade de que as coisas nos escapam, de que podemos ser extremamente falíveis. Ele nos põe diante da indeterminação, da incerteza, e do provisório.

Talvez por isso ele tenha sido tão incompreendido - e, também, impopular.

quinta-feira, agosto 13, 2009

No paraíso de Borges

"Siempre imaginé que el paraíso sería algún tipo de biblioteca".
- Jorge Luís Borges


Sonhei que me correspondia com alguém pelos livros. Tudo começou quando retirei da biblioteca uma meia dúzia de livros, como sempre faço, e, numa deitada só, li trechos de pelo menos quatro deles. Como não há marcadores de páginas suficientes, peguei vários papéis que havia ali pelo quarto para marcar os livros e "salvar" a leitura, como fazemos com jogos de videogame muito longos, e um desses marcadores só poderiam ser antigas cartas de amor, bilhetes do colégio, pedaços de fotografias, e o resultado do meu exame mais recente de fezes. Alguns livros precisavam de mais de um marcador, porque são muitas referências, termos novos, nomes de autores e dúvidas que afloram a cada parágrafo - não custa nada ir e voltar, percorrendo o mesmo caminho sempre, mas sempre com novos olhares, com nos ensina Umberto Eco (ou não. rs).

Rigorosamente no último dia de empréstimo, porque não gosto de pagar multas, voltei à biblioteca para renovar os livros e tive que devolver um deles, solicitado por outra pessoa para reserva. Devolvi, relutante. Foram dias e dias para reencontrá-lo na biblioteca; voltava sempre às prateleiras e ele não estava lá. Semanas depois, procurando outros volumes, descobri que era só olhar um pouco mais para o lado e descobrir que o livro estava, afinal, por ali perto. Eles nunca são devolvidos exatamente ao seu lugar original, ou talvez sejam: a biblioteca é como um enorme monstro vivo cujos órgãos são os livros que se remexem para lá e para cá. Mesmo que se procure muito e nada se encontre, não há por que desistir. Os volumes sempre estão lá, mais para a esquerda.

Novamente em posse do livro que forçosamente devolvera, agora acompanhado de outros volumes, folheei-o como de costume. Da outra vez que fiz isso, em outro livro, encontrei um cartão postal todo rabiscado de hidrocor preta; os rabiscos às vezes formavam palavras em italiano ou espanhol. Desta vez reencontrei, não sem muito embaraço, o resultado do meu exame de fezes. Minhas cartas de amor, meus pedaços de fotografia e os bilhetinhos de colégio haviam sumido todos, talvez raptados pela pessoa que reservara o livro. Não há muito o que ser feito, pensei acordando. As bibliotecas são mesmo feitas de livros e os livros são mesmo feitos da gente.

quinta-feira, julho 23, 2009

Da criação do Universo e das eras

Havia Deus na era dos dinossauros?

No começo era o pó, o frio e a escuridão. Um silêncio de dar tédio. Foi então que Deus manejou com um grande braço seus escuros materiais, levando-os à borda do infinito a fim de dar a ele uma finitude, querendo criar um vendaval que, enfim, criou-se. Foi a invenção do Big Bang. Dele vieram galáxias dentro de galáxias, estrelas que explodiam, Sóis quentes e gelados que atraíam planetas para si e faziam tudo equilibrar numa complicada equação de forças e calores.

Havia ali no meio um planeta que as escrituras bem descreveram e do qual Deus quis ele mesmo, pessoalmente, encarregar-se. Chamava-se Terra e a obra começou quando ele dividiu o nada em duas partes, formando o céu e o chão onde iam pisar todas as mortais criaturas; no entanto a divisória ficou imperfeita e daí surgiram montanhas e vales grandiosos. "Não era para ser assim, mas está bom", disse Deus. Então Ele desenhou na superfície da Terra e daí nasceram a grama e as árvores, as plantas com seus frutos e os animais. As coisas eram tão bonitas e boas em si mesmas que não dependiam de mais ninguém para existir, nem mesmo Dele.

No último dia de criação, Deus fez pequenas criaturas que eram em sua imagem e semelhança como ele, portanto cheias de imperfeições. Deus ficou insatisfeito e guardou as criaturas em uma de suas gavetas. Tomado de exaustão, Deus dormiu e a Terra recém-criada pôde desenvolver-se; e as plantas e os animais cresceram e se tornaram coisas que ninguém sabe o que eram porque ninguém viu. Apenas uma delas tornou-se conhecida, eram os dinossauros e dominavam os céus, o chão e as águas; eram ferozes, gigantescos e em sua maioria velozes, e foi por sua astúcia que dominaram o planeta. No entanto tinham um cérebro pequeno e não se questionavam, não sentiam emoções e não se comunicavam senão por gritos horrendos e grunhidos de fome, não se perguntavam sobre a criação e sobre Deus, que dormia.

Até que um dia, Deus acordou e verificou que os dinossauros nada faziam; eles não mudavam porque não se questionavam, não afrontavam Sua existência e pareciam sempre satisfeitos. Foi aí que Deus quis recomeçar tudo, e tudo destruiu com um cometa que se chocou contra a Terra, fazendo as coisas virarem fumaça. Antes de redesenhá-las, porém, Deus cochilou novamente, mas se levantou rápido e, quando viu, as criaturas semelhantes a ele, que estavam presas na gaveta, de um modo conseguiram escapar e já estavam lá embaixo na Terra, decididas a povoar a Criação.

Deus, que até então era tolerante com os erros, deixou as criaturas viverem no mundo, e viu que essas sim questionavam-se, sofriam, riam e choravam, e pareciam querer transformar as coisas porque havia algo que lhes era intrínseco e se chamava inteligência. Deus viu que não era mais necessário fazer nada por ali, e foi criar outros mundos.

baseado no anime haibane renmei

sábado, julho 04, 2009

Reservado

"Você é tão reservado".

A frase veio com tom de reprovação, como que proferida em hora e local indevidos, como que embasada num julgamento, num juízo de valor. Quase equivalente a um "você é tão esquisito". O sol das 17 horas banhava os degraus de um amarelo aconchegante, cálido, mas que naquele momento destoou completamente e pareceu até repulsivo. Balbuciei uma explicação que não saiu. Não há por que explicar-se, não há como fazê-lo; simplesmente é e pronto. Não vejo problemas em analisar as linhas da mão, as veias saltadas, as rugas dos outros, os motoristas em outros carros, os pássaros em suas árvores; não vejo problemas em pensar, pensar e pensar imergindo num fluxo tão grande de palavras e coisas que só me resta o silêncio para aquietar tudo isso. Não vejo por que não contemplar os passos nesses degraus banhados d'ouro, não vejo por que não olhar para trás e pensar "puxa, o sol das 17h é tão bonito", depois virar para frente e pensar que o silêncio é tão cheio de ideias.

"Você é tão reservado".

quinta-feira, junho 25, 2009

Uma desculpa para não ir

Colegas,

Venho por meio deste justificar minha ausência na festa junina da CORDI. Eu _juro_ que estava indo para a festa, mas aí apareceu uma cratera no meio. Não, era um precipío mesmo, sério!, aí eu caí e rolei, e enquanto eu rolava gritei "NÃOOOOO! EU PRECISO IR PARA A FESTAAAAAA, O PESSOAL ME QUER LÁÁÁÁÁ!". Mentira. Não, agora sério, eu fiquei com dores no corpo, achei que ia ficar gripado e o Tarzan nem ia querer me beijar na barraca do beijo. Risos. Além disso vocês todos já gostam de falar alto e dizer palavrões, ninguém tem um assunto bom que seja nesse setor, e eu não queria ver essa situação piorada quando vocês estivessem bêbados, loucaços, tirando a roupa etc (credo. quer dizer, NÃO).

abçs

sexta-feira, junho 12, 2009

Corpo de Cristo

Hoje uma criança, um garoto, chorava pedindo esmola no semáforo. Chorava alto, percorrendo a fileira de carros e gritando "me ajuda, me ajuda", com a mão levantada e muitas lágrimas no rosto sujo. Poderia estar ali por muitos motivos. Poderia ser fome, uma fome severa (dizem que fome, fome de verdade, faz doer o estômago). Poderia ter sofrido um trauma, um espancamento, um estupro, uma dor terrível, um abandono. Poderia estar chorando de humilhação. Poderia estar ali por ordem dos pais, chorando de vergonha, ou chorando de fingimento, porque lhe ordenaram.

Mas nada justifica o estado lamentável daquele ser humano em prantos. Virei-me para buscar a carteira e pegar ali um dinheiro, enquanto ao meu lado, fora do carro, o menino chorava e aquela dor me reverberava nas orelhas. Dei-lhe 5 reais, sabendo que não são 5 reais que resolvem uma agonia. Durante aqueles minutos em que procurei o dinheiro, poderia ter morrido, sofrido um assalto, um sequestro, um tiro na cabeça, um furto no carro. No final, ele agradeceu, continuando a chorar.

O que me leva a crer que seu desespero era real, e não mero teatro. Mesmo que fosse, ainda assim era uma criança em sofrimento, uma criança que não despertou a revolta de ninguém, uma criança que não estava alimentada, não estava limpa, não estava saudável, não estava brincando. Também nenhuma mão se ergueu para ajudá-la, para abraçá-la, para oferecer-lhe um conforto, nenhuma mente se questionou daquilo que viu e que não viu (afinal, já nos ensina a semiótica que o mundo que vemos diante de nós nos ajuda a pensar sobre o mundo que não estamos vendo).

Somos um país majoritariamente católico, talvez não sempre praticante, mas com certeza crente em Deus. Gostamos de ir à missa, rezar e celebrar o corpo de Cristo. Quase sempre tememos abrir nossas janelas, por medo de roubarem nosso dinheiro tão valioso, e sequer nos incomodamos, porque não aprendemos questionar o mundo que estamos construindo. O corpo de Cristo está bem guardado em nossas capelas douradas, e ao que parece deve valer muito mais que o corpo do homem, em frangalhos sob qualquer semáforo e para o qual não se rezam missas. Como diz Saramago, "assim vai o mundo e não haverá outro".

sábado, junho 06, 2009

Rodada de negócios, quem curte?

Nada mais perigoso e sexual que uma rodada de negócios entre empresas. Geralmente acontece no prédio mais afastado, cercado por um mato alto onde se escondem coisas que é melhor deixar pra lá. A infra-estrutura é impecável, o auditório tem um ar-condicionado que simula o inverno da Sibéria, os banheiros são limpos, modernos, ecológicos etc. A simpatia dos funcionários atrai os convidados sempre para o interior mais profundo daquele prédio, longe do estacionamento amarelado e dos carros com faróis ligados, que desligam à menor das observações.

É nesse ambiente perfumado, climatizado e socialmente desconectado da realidade dura deste país lusófono de dimensões continentais que acontecem as parcerias, os diálogos e, o pior, os elogios tão descarados. A coisa começa quando a coordenadora faz a social com os mais chegados, abraça e beija e inaugura o coquetel (refrigerante, suco fit de uva, pão-de-queijo, quiche de queijo, bolo de queijo, e sanduíche de frango, coxinha de frango e pastel de frango, frango e frango com frango).

Enquanto os presidentes de cada empresa se revezam numa dança louca das cadeiras, os outros integrantes se distribuem ao redor da mesa, em grupinhos primeiro herméticos, mas que depois vão recebendo um elemento externo aqui e ali, e a paquera está armada. As frases mais recorrentes são Oi, tudo bem?, o que vocês fazem?, sua empresa é o máximo!, vamos fazer uma parceria, toma aqui o meu cartão, qual é o seu telefone mesmo?, ah, eu funciono melhor por email - a partir daí, basta pouquíssimo pra as mãos deslizarem para os quadris, puxarem a calça com violência e corpos se arremesando contra as paredes.

Mas não. O que se vê é uma série de tiques nervosos, hormônios caindo e subindo, perfumes nauseantes se misturando no ar e olhos percorrendo lá e aqui, indo e voltando. Com a mente nos negócios, fica difícil divisar, entre tanto terno, tanta roupa, tanto tecido, os corpos tão desejados. O olho afinal precisa atravessar paletós, gravatas e camisetas para enfim chegar às formas tão desejadas, as gotas de suor deslizando pelos peitos e chegando aos cintos, porque lá sim residem os grandes sucessos.

Até que se desvelem todos os segredos, demora tempo e álcool no sangue dessa gente que gosta de estar gerindo pessoas. Durante este intervalo em que nada acontece, os olhos e as intenções vão dos rostos aos colarinhos e por aí param.

terça-feira, maio 12, 2009

Vi flores, vi insetos, vi árvores e vi amores