Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Meu primeiro toco


É o que sempre disse: gente bonzinha só se *. Eu não deveria ter aceitado seu convite para uma conversa, não deveria ter começado com aquele email. Você soube arquitetar a conversa muito bem e eu nunca imaginei que a evasão custasse tanto jogo de cintura. Mas eu poderia ter aceitado, pelo gosto culposo da aventura. Poderíamos fingir que nos esbarramos lá por acaso. Entraríamos na mesma sala, e você gripado fungaria como uma porca enjaulada, o frio do ar-condicionado descendo espiralado como um perfume envenenado, querendo que nos agarrássemos. Agarraríamo-nos com as mãos, apenas, sua mão quente aquecendo a minha. Visualizaríamos essa cena em plano-detalhe, como um dos muitos planos-detalhes que transbordam nesse filme do Quebec, e como é impossível entender o sotaque do Quebec. Seria somente nesse ponto, porém, banhado pela luz da tela, que eu poderia perceber: nada disso aconteceu, eu não aceitei, eu recusei depois de muito pensar e o que me levou a sentar sozinho naquela sala foi o fato de eu ter dado meu primeiro toco.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Percebi

Eu percebi que você está me olhando, percebi sim. Não adianta fingir discrição, não adianta revezarmos os olhares, eu sei que você está me olhando e você sabe que eu estou correspondendo. Então vamos juntos voltar de Nárnia, vamos fingir que não há ninguém aqui e sair rolando por essas esteiras. Vou começar lambendo sua garganta, passar pela cabeça e ir descendo pelas costas suadas, porque sua camiseta grudou na pele e eu consigo enxergar os músculos com seus volumes e movimentos, a transpiração, vou rasgar todo esse tecido e guardá-lo para mim, vou apalpá-lo como se não houvesse amanhã, vamos aproveitar que ainda há tempo e que eu percebi.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Barulho de água

A lanchonete era velha, e havia ali muitos sinais que indicavam isso: a cerâmica anos 60, os copos americanos de vidro, as garrafas retornáveis, a televisão velha, os cabelos no ralo da pia e as manchas de gordura no teto acima dela, grandes manchas amareladas que iam grudando, grudando e já eram testemunhas vivas da história.

A lanchonete fazia-se ouvir bem de longe, e talvez aí encontravam-se os indícios mais óbvios do seu envelhecimento. Bastava ligar uma torneira ali dentro e um barulho de sucção vinha subindo pelos canos, chamando pela água; o ruído ia crescendo e crescendo, assomando como o suspiro, ou melhor, o grito, dos fantasmas das pessoas que já haviam pisado ali. Demorava até a água chegar, e, quando chegava, era com estremecimento e alarde. Fazia as paredes estremecerem, o chão, as estantes, os copos, os talheres, as pessoas, era uma loucura que obrigava a torneira ser desligada logo depois, só dava tempo de enxaguar um copo. E aí era preciso abrir a torneira de novo e ouvir os gritos de novo, e depois estremecer, fazendo a gente longe dali olhar para trás.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Voltar ao início

Essa coisa que vem crescendo no peito não é o que chamam de dúvida, é mais uma certeza acompanhada de uma pergunta sobre o que virá depois, mas é difícil termos certezas, o próprio mundo se encarrega de nos mostrar que elas são extremamente falíveis. De modo que é melhor dizer apenas que alguma coisa cresce, e assim voltamos ao início.

O que nos resta é a sensação de que não podemos pisar nada além da própria terra, que precisamos valorizar apenas isto que é o agora, e que inevitavelmente as coisas vão se desmanchando pelo ar como falecem as pessoas...

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

O acaso existe

O que há de brilhante na obra deste homem é não só ter elaborado uma teoria sobre a mais fundamental e básica faculdade humana - o pensamento -, mas ter dado, a todos os que conhecem seus escritos, a oportunidade de encarar algo que poucos querem encarar: o acaso. O que Charles Peirce nos ensina em sua semiótica - a ciência geral dos signos - é que não podemos escapar do acaso; que ele, como signo, é bruto e físico, e responsável pelo começo de uma cadeia que é o próprio pensamento. Ele nos mostra que estamos sujeitos a todo tipo de eventualidade, e que ela nos leva a outros lugares.

Que não há conhecimento certo ou seguro, e que este deve ser analisado à luz dos fatos externos. Que é só tropeçando na eventualidade do real que experimentamos algo distinto de nossas expectativas. Que não podemos escapar à presença invariável da mudança. Que o homem, como signo, é um processo; não pode ter um sentido em si mesmo, isolado, pronto, se não estiver dirigido a outro signo; não se pode precisar seu começo ou seu fim, não pode estar "acabado", não pode ter uma história escrita nos Livros, no céu ou nas estrelas, não está destinado a ir a lugar algum. O que Peirce arremessa diante de nós é a dura verdade de que as coisas nos escapam, de que podemos ser extremamente falíveis. Ele nos põe diante da indeterminação, da incerteza, e do provisório.

Talvez por isso ele tenha sido tão incompreendido - e, também, impopular.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

No paraíso de Borges

"Siempre imaginé que el paraíso sería algún tipo de biblioteca".
- Jorge Luís Borges


Sonhei que me correspondia com alguém pelos livros. Tudo começou quando retirei da biblioteca uma meia dúzia de livros, como sempre faço, e, numa deitada só, li trechos de pelo menos quatro deles. Como não há marcadores de páginas suficientes, peguei vários papéis que havia ali pelo quarto para marcar os livros e "salvar" a leitura, como fazemos com jogos de videogame muito longos, e um desses marcadores só poderiam ser antigas cartas de amor, bilhetes do colégio, pedaços de fotografias, e o resultado do meu exame mais recente de fezes. Alguns livros precisavam de mais de um marcador, porque são muitas referências, termos novos, nomes de autores e dúvidas que afloram a cada parágrafo - não custa nada ir e voltar, percorrendo o mesmo caminho sempre, mas sempre com novos olhares, com nos ensina Umberto Eco (ou não. rs).

Rigorosamente no último dia de empréstimo, porque não gosto de pagar multas, voltei à biblioteca para renovar os livros e tive que devolver um deles, solicitado por outra pessoa para reserva. Devolvi, relutante. Foram dias e dias para reencontrá-lo na biblioteca; voltava sempre às prateleiras e ele não estava lá. Semanas depois, procurando outros volumes, descobri que era só olhar um pouco mais para o lado e descobrir que o livro estava, afinal, por ali perto. Eles nunca são devolvidos exatamente ao seu lugar original, ou talvez sejam: a biblioteca é como um enorme monstro vivo cujos órgãos são os livros que se remexem para lá e para cá. Mesmo que se procure muito e nada se encontre, não há por que desistir. Os volumes sempre estão lá, mais para a esquerda.

Novamente em posse do livro que forçosamente devolvera, agora acompanhado de outros volumes, folheei-o como de costume. Da outra vez que fiz isso, em outro livro, encontrei um cartão postal todo rabiscado de hidrocor preta; os rabiscos às vezes formavam palavras em italiano ou espanhol. Desta vez reencontrei, não sem muito embaraço, o resultado do meu exame de fezes. Minhas cartas de amor, meus pedaços de fotografia e os bilhetinhos de colégio haviam sumido todos, talvez raptados pela pessoa que reservara o livro. Não há muito o que ser feito, pensei acordando. As bibliotecas são mesmo feitas de livros e os livros são mesmo feitos da gente.

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Da criação do Universo e das eras

Havia Deus na era dos dinossauros?

No começo era o pó, o frio e a escuridão. Um silêncio de dar tédio. Foi então que Deus manejou com um grande braço seus escuros materiais, levando-os à borda do infinito a fim de dar a ele uma finitude, querendo criar um vendaval que, enfim, criou-se. Foi a invenção do Big Bang. Dele vieram galáxias dentro de galáxias, estrelas que explodiam, Sóis quentes e gelados que atraíam planetas para si e faziam tudo equilibrar numa complicada equação de forças e calores.

Havia ali no meio um planeta que as escrituras bem descreveram e do qual Deus quis ele mesmo, pessoalmente, encarregar-se. Chamava-se Terra e a obra começou quando ele dividiu o nada em duas partes, formando o céu e o chão onde iam pisar todas as mortais criaturas; no entanto a divisória ficou imperfeita e daí surgiram montanhas e vales grandiosos. "Não era para ser assim, mas está bom", disse Deus. Então Ele desenhou na superfície da Terra e daí nasceram a grama e as árvores, as plantas com seus frutos e os animais. As coisas eram tão bonitas e boas em si mesmas que não dependiam de mais ninguém para existir, nem mesmo Dele.

No último dia de criação, Deus fez pequenas criaturas que eram em sua imagem e semelhança como ele, portanto cheias de imperfeições. Deus ficou insatisfeito e guardou as criaturas em uma de suas gavetas. Tomado de exaustão, Deus dormiu e a Terra recém-criada pôde desenvolver-se; e as plantas e os animais cresceram e se tornaram coisas que ninguém sabe o que eram porque ninguém viu. Apenas uma delas tornou-se conhecida, eram os dinossauros e dominavam os céus, o chão e as águas; eram ferozes, gigantescos e em sua maioria velozes, e foi por sua astúcia que dominaram o planeta. No entanto tinham um cérebro pequeno e não se questionavam, não sentiam emoções e não se comunicavam senão por gritos horrendos e grunhidos de fome, não se perguntavam sobre a criação e sobre Deus, que dormia.

Até que um dia, Deus acordou e verificou que os dinossauros nada faziam; eles não mudavam porque não se questionavam, não afrontavam Sua existência e pareciam sempre satisfeitos. Foi aí que Deus quis recomeçar tudo, e tudo destruiu com um cometa que se chocou contra a Terra, fazendo as coisas virarem fumaça. Antes de redesenhá-las, porém, Deus cochilou novamente, mas se levantou rápido e, quando viu, as criaturas semelhantes a ele, que estavam presas na gaveta, de um modo conseguiram escapar e já estavam lá embaixo na Terra, decididas a povoar a Criação.

Deus, que até então era tolerante com os erros, deixou as criaturas viverem no mundo, e viu que essas sim questionavam-se, sofriam, riam e choravam, e pareciam querer transformar as coisas porque havia algo que lhes era intrínseco e se chamava inteligência. Deus viu que não era mais necessário fazer nada por ali, e foi criar outros mundos.

baseado no anime haibane renmei