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sábado, junho 21, 2008

Samuela


Samuela era a menina mais erótika da turma. Erótika, com k mesmo. Falava com uma voz baixa e derretida, que não eram gemidos porque ela não era vulgar. Arranjava um penteado diferente para cada dia, por vezes coisas muito complicadas, com fios que se amarravam atrás e mechas suspensas no ar, que lhe deixavam com cara de lua; era muito criativa, mas ela sempre tomava o cuidado de deixar a franja ocultar-lhe um pedaço do rosto, o que a deixava ainda mais misteriosa, erotikamente misteriosa. A pele era normal, sem maquiagens. Tinha também um arsenal complexo de botas aveludadas que fariam inveja a qualquer moça de sua idade. Quando não usava saias acima do joelho, optava por saias muito acima do joelho, indecentemente acima do joelho. Não gostava de decotes: seu segredo mais desejável estava na parte baixa do corpo. Sentava-se sempre com as pernas cruzadas, atiçando a curiosidade dos meninos que a todo custo tentavam ver sua desirrê. Não tinha celulites, apesar dos refrigerantes e chocolates que ela sempre trazia para comer durante as aulas. Chicletes? Sim, claro, vários por dia. Seu maxilar irrequieto era a única coisa que quebrava o silêncio – e a atenção – dos outros alunos. Quando falava, os gestos eram moles também, suas mãos dançavam languidamente no ar, como as de um maestro com sono, e ao final de cada frase ela as repousava sobre a mesa, e os dedos caídos apontavam invariavelmente para os joelhos. Aí os meninos olhavam dos dedos para os joelhos, e dos joelhos para as pernas, e das pernas para a minissaia. Da saia, para algum recanto sombrio lá dentro. Samuela era um ciclo interminável.

sexta-feira, maio 30, 2008

Sentido da vida

"Come with me, my love
To the sea of love
I wanna tell you how much I love you"
Cat Power

A mulher se escorou no balcão e esperou ser atendida, morta de tesão. Naquele momento ninguém seria capaz de saciar sua vontade – somente ele. Perscrutou ávida, na vitrine, aquele que melhor lhe agradava, mas todos eram lindos e maravilhosos, todos eram SÓ PARA ELA, MEU DEUS!, quase não cabia em si de tanta alegria por haver tantas opções...! Meteu a mão nos bolsos para ver quanto dinheiro ainda tinha, e se de repente não pudesse pagar por um luxo daqueles? Seria a pior morte de todas. Mas aí veio o rapaz de jaleco branco meio desabotoado, ela fez seu pedido e EM BREVE SERIA FELIZ NOVAMENTE! Logo, logo poderia encontra-se com aquele que daria sentido à sua vida de prazeres, logo poderia jogar-se nos braços da melhor invenção do homem: o chocolate.

Então o pedido chegou e ela comeu comportada.

domingo, outubro 14, 2007

A devolução do DVD

Um cliente revoltado abandona a loja a passos de criança emburrada e o próximo cliente se aproxima timidamente do balcão, entrega os DVDs num plástico humilde e rasgado e volta a perguntar:
"vocês têm mulheres à beira de um ataque de nervos?"
"tem mulheres à beira de um ataque de nervos aí, gerson?"
"ah, tinha... mas não está mais na loja".
"desculpe, senhor, não está mais na loja, e seus DVDs ficaram em 7 reais e..."
"eu já paguei".
"ah?, para qual funcionário você..."
"era o moço com cara de nuvem".
"FELIPE!!!"
O Moço com Cara de Nuvem sai da seção pornô carregando umas coisas indecorosas que até Deus duvida. Olha o garoto como quem remói uma longa história e cai num silêncio profundo, que é logo rompido por uma criança birrenta que vasculha uma prateleira, ao fundo. O moço enfim confirma que o cliente pagou em-di-nhei-ro.
"e olha o que eu achei!", completa, ofegante e vermelho, "é o mulheres à beira de um ataque de nervos, que estava na seção pornô por engano".
E foi assim que o chefe da locadora, vendo a cena embaraçosa, deixou que o garoto levasse um Almodóvar de graça.*
*
é uma pena que se trata de uma ficção, uma história inventada; eu teria ficado feliz.

quarta-feira, outubro 10, 2007

O sumiço do DVD


O moço da locadora (acho mais fácil chamar assim, é genérico etc) trabalha avidamente em seu computador.
"Moço, tem mulheres à beira de um ataque de nervos?"
(esse título não precisava ser tão grande, mas que idéia)
Moço genérico olha para a tela com cara de nuvem e responde:
"Tem sim, está na seção dos cults".
Moço genérico acompanha garoto sonhador de olhos chorosos (este sou eu) e os dois vasculham loucamente as prateleiras, mas nada encontram. Moço genérico some, procura na seção de dicas, de comédias, dramas, de "arte" (?), mas não há nada lá. A seção de "arte" é a mais arbitrária, é ali que ficam os filmes que marcaram época, alguns alemães, umas coisas antiqüíssimas, e alguns asiáticos quaisquer. Alguns adolescentes estacionam no meio das prateleiras, e dificultam a locomoção do garoto choroso. Moço volta e diz, ainda com cara de nuvem:
"É, pelo jeito não está na loja", e olha para o teto, procurando conforto e refúgio para a reclamação que não vem. Fica por isso mesmo. Garoto sonhador de olhos decepcionados sente-se forçado a alugar um drama com a Cate Blanchett, outro com chinesas hedonistas que dão pra todo mundo e outro do Almodóvar, para substituir o mulheres. Afinal, o feriado era para ser bom.