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terça-feira, julho 22, 2008

O Grito


Acordou cedo aquele dia e examinou o rosto fundo e embaçado no espelho; sua miopia devia ter saltado uns 5 graus, mal enxergava. De repente soube divisar algo parecido com uma porta na superfície daquele vidro que sempre o andara observando. Sim, uma porta escura cuja profundidade sinistra prolongava-se para o além. Pensou se deveria continuar olhando aquele filme que lhe projetavam por ali. Sim, por que não?, um filme é totalmente seguro e o espectador sabe que nada vai acontecer com ele, porque é só uma representação. Ademais já tinha 20 anos, em breve seriam 22, depois 25, e ele seria um adulto, e viajar na maionese, nunca mais; sete, quatorze, vinte e um. Tinha um gosto estranho na boca que sem dúvida era da sopa do dia anterior, mas não saberia precisar se era do sal, do alho, da pimenta ou do gengibre. A porta agora mostrava um universo paralelo, um país das maravilhas, talvez?... O gengibre era como mandrágora e a pimenta era docinha, docinha. Olhando-se naquele espelho, naquele banheiro frio, sentia-se duro e solitário tanto quanto vai se sentir a última barata na Terra, depois da Terceira Guerra Mundial. Não mais quis hesitar, montou na pia belíssima de granito rosado e atravessou, como as personagens clássicas, que, nas histórias clássicas, simplesmente atravessam.

dica da semana:
o novo CD da Carla Bruni é legalzinho, mas começo a escutar e lembro que as músicas podem ter sido inspiradas no Sarcozy, e de repente fica tão nojento.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Espelho meu

Vem com roupa apertada e luvas de pelica, e uma expressão pretensamente sensual na cara dura, andando de lado, e avança. Respira lentamente, canta com a língua entre os lábios. Ergue a sobrancelha de leve, faz cara de arrogante, mas por dentro você é fraco, João. Tenta ser adorável, mas recebe pitacos espinhosos de volta, e depois mais um tapa, e outro, e outro. Mas não desiste. Você é que não sabe fazer direito, João. Põe o rosto de lado e sorri, exibe as bochechas limpas, mas beleza não é nada, nem pureza nos olhos, nem perfumes no braço, nem porra nenhuma. Esconde o choro, chorar é feio, chorar não pode, homem não chora, nem mulher, nem cão. Não desiste, João, mesmo que o queira muito, mas esquece, deixa pra lá. Encara o mundo hostil, não abaixa o queixo, continua firme, tenta. Endurece mais ainda, encara mais, crispa os lábios em desprezo, e vai embora. Olha o espelho, João. "Espelho, espelho meu, existe alguém mais atordoado do que eu?"