
(paisagens não sorriem, mas aquela lhe sorriu. ele retribuiu com o sorriso moribundo que lhe restava, e podia ficar para sempre ali, vendo, porque era bonito e melhor que amar)
O dia seguinte era um outro dia, ele estava cansado de andar e resolveu sentar apenas. Sentou e observou.
O que havia além daquelas duas lentes que eram seus olhos úmidos e pesados era um conjunto de símbolos a deduzir e desvendar. Munido do suspiro forte de ódio e ardor, sua última arma desde então, olhava para os outros sem querer que eles o olhassem. Vontade atendida: ninguém o viu morrer sozinho, ali mesmo, no meio do mundo inteiro, meu Deus; absolutamente ninguém viu. Estavam ocupados demais em lavar com água ensaboada os carros, as varandas, os cachorros e as mulheres. Dizem que, ao morrer, uma pessoa comum vê uma luz branca, redonda e apaziguadora rodando, rodando. Ele não era uma pessoa comum, e o que viu (além daquelas duas lentes que eram seus olhos úmidos e pesados, e agora tristes) era um verdadeiro turbilhão de luz branca, gigante, convulso, irrequieto, MEU DEUS!, era a pior coisa do mundo. Ele vai morrer em breve, sentado mesmo, mas ninguém sabe disso, então, psst!, segredo só nosso. O furacão de luz branca mostrou-lhe as coisas erradas que fizera em vida, e foram todas. Mostrou-lhe as coisas certas que poderia ter feito ao invés, e eram fáceis. Mostrou-lhe que poderia ter mudado o mundo, vencido as barreiras, chegado em primeiro, quebrado paradigmas, mostrou-lhe que era um super-herói que morreu sentado.
Ele morreu sentado, ali mesmo, na frente dos olhos dos outros, e ninguém sabe por quê, porque ninguém viu.
7 comentários:
"...que poderia ter feito ao invés, e eram fáceis."
esse texto tem algo muito diferente seu nele, curiosíssimo isso. gostei da banalidade (eu me amarro no banal explicitado e apedrejado ou exaltado)
olhos pesados rox flá
e desejo de morrer sozinha eh meu segredo a cada dia, mas como a cada dia eu deixo pro dia seguinte o objetivo de virar uma super-heroina..
o meu desejo é só desejo enquanto eu continuar tendo planos futuros e enquanto eu esquecer de fazer muitas coisas e terq deixá-las pra dps
vc já reparou q nao é possível alguem morrrer em paz? vc morre preocupado com a família q sofrerá por vc, pelo dinheiro q vc deixou de ganhar, pelas coisas q deixou de fazer, pela virginidade que não perdeu.. hehehe
mas sério!
(n q eu teja reclamando. fico feliz em ter motivos pra me preocupar com a vida e não-morte!)
..
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lalalalala
o observador é quem conta a história depois :)
vc tb faz isso na vida real? virar telespectador? n sei c de fato já o fiz, mas pra mim, faço sempre. é tipo uma penseira, só q usando os outros. vejo eu ni vocês.
(ni)
É ... poderíamos ser Deuses, mas rastejamos como pobres animais perdidos, desperdiçando a vida com pequenas bobagens, queimando nosso potencial com egoísmo, preguiça, medo. Não é fácil reverter todo esse condicionamento, essa cultura que a humanidade criou e com a qual se entorpeceu, mas não vejo outra saída para uma vida realmente plena. E esse processo leva tempo, leva tempo (cronológico) para nos livrarmos do tempo (psicológico) hehehe, meio paradoxal. enfim, a natureza não dá saltos.
Muito bonito o texto, e espero não ter fugido demais do assunto no comentário (sempre tenho essa impressão hehe). Seu blog foi devidamente linkado ao meu. =)
Abraço!
Bruno.
tempos que não passava aqui! texto muito interessante, flávio.. as vezes a gente não pára pra pensar sobre os nossos atos de decisões.. :T
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Que medo de morrer sentada e ngm ver, e não ter feito nada, nadinha msm, de que eu possa me orgulhar!
Tem uma história que é assim: se uma árvore cai no meio da floresta, e ngm ouve, ngm vê, ngm nada, ela caiu?
Vai ver essa cara não morreu *medo* o.o
(tá, parei. XD)
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