quinta-feira, outubro 09, 2008

Sua operação não pôde ser completada

A frase mais ouvida de todo este semestre já é, sem dúvida, a boa e velha "sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita à cobrança após o sinal", que muitas vezes é lida por telefonistas MUITO afobadas que pretendem terminar logo a frase para fazer soar o sinal e cobrar do sujeito que está do outro lado da linha, enquanto o pobre coitado tenta ainda perceber o que aconteceu. Em segundo e terceiro (e quarto e quinto etc) lugares vêm as semelhantes "sua operação não pôde ser completada" (?), "esta caixa postal não possui serviço de chamada ativo" (???), ou a aliterante "atendimento digital: após o sinal digite o ramal ou aguarde".

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É impressão minha ou os blogs realmente bons, escritos por pessoas que eventualmente despontam para um sucesso meteórico, nunca são hospedados no blogspot?

terça-feira, outubro 07, 2008

Manga


Na mão espalmada a manga grande e descascada cabia inteira, suculenta, cheia de vida aquática. As pessoas são tão chatas, cansativas, palpitantes, palpitativas, bedelhudas, pescoçudas etc. A garagem quente desembocava na seção infantil da loja, recebendo os clientes com um bafo fresco de ar condicionado. A estação do metrô saía assim no meio do nada; à frente, o Banco Central e nada mais, só o azul. A psicóloga é mais uma carrasca na sua vida. E a manga pingando. Mais um ping e daria para ver todos esses elementos do mundo, as cigarras, os prédios, o asfalto-essa-estampa-cruel, o amor, o amor, o amor, o azul, o vermelho, o rosa, e o amarelo da manga rodando no liquidificador.

(crédito da foto: gettyimages)

domingo, outubro 05, 2008

Olhando a cidade


Senta e observa a cidade.
O céu tenebroso é como seu humor enegrecido e seu espírito irrequieto, que sofre por antecipação. Lá embaixo, as garotas alternativas cujas casas parecem filmes do Almodóvar passam rindo, com lenços vermelhos ou azuis na cabeça. Você escolhe. O metrô está meio quente, meio cheio, meio vazio. Transpire o calor. Homens e mulheres se abraçam na chuva, os estrangeiros olham, os estrangeiros olham os estrangeiros. Um menino sai correndo nessa mesma chuva, entre as pessoas, em câmera lenta, carregando uma almofada. Quando ele abraçar a almofada e espirrar água para todos os lados, como uma esponja raivosamente espremida, encharque-se com ele.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Querido leitor



Querido leitor,

Gostaríamos de avisar que o jornal vai atrasar. Até não se sabe quando. Bom, pelo menos até resolverem o problema do calor, que ressalta a nossa sensualidade e aumenta consideravelmente o estresse. Pode ser que tudo volte ao normal depois da reforma da FAC, quem sabe não teremos um ar condicionado? Enquanto isso, a editora-chefe deu um beijo na mesa e foi esfriar a cabeça (beeem longe daqui). Os diagramadores optaram por duas coisas: sucumbir à pneumonia ou festejar o Carnagoiânia. Os revisores, como não há páginas a revisar, não revisam. E, no final, vão sobrar cinco ou seis alunos sobrevivendo nesta redação, um lance meio seleção natural, meio Darwin demais pro meu gosto. Nesse ambiente de guerra que é um currículo doido que comunga rádio e impresso no MESMO semestre, não há botafora que salve (não mesmo) - e se você, leitor, estivesse na nossa pele, já teria mandado tudo para os ares. Sério.

Beijo,
fui.
(Flávio Silva, editor de fotografia da edição 330)

(crédito da foto: capo.mario)

sexta-feira, setembro 26, 2008

Haicais da modernidade

Quando você chega de viagem?
Domingo à tarde :(
Tarde demais, até lá o caos já terá reinado.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Quiquitos


Eram muito parecidos, tanto na barba quanto no jeito paranóico de achar que um trovão era o mundo acabando. O rosto rosa, tudo, tudo. Juntando os dois, daria um Devendra Banhart intranqüilo, com grandes hiatos de calma e uma indiferença que não era exatamente indiferença, mas a suspensão de um momento intenso. Nem os miasmas profundos grudados naqueles presentinhos seriam suficientes para separar as marés turbulentas dos dois. Aqueles ali estão fadados a uma vida em comunhão, a uma cruz carregada juntos, a lamentações divididas e sorrisos partilhados, porque nem nisso eles diferem.

Dearest dear
I know you been here
Why'd you run tell me why'd you disappear now

That you're not
Here with me
Seems to be the only time that I can see you clearly

sábado, setembro 13, 2008

Cegueira


Ensaio sobre a Cegueira não é um filme para se comparar com o livro, que é infinito e imbatível, mas para ser deleitado como um filme rico em linguagem e narrativa, além de extremamente criativo. Sem falar que Meirelles soube ser muito sensível, a ponto de não converter tensão em dramalhão, nem beleza em final de novela. Cegueira faz tudo na medida certa, inclusive nas tão comentadas cenas de estupro, e no fim o espectador compreende porque até mesmo Saramago chorou de emoção ao término da fita.