domingo, agosto 10, 2008

Cogumelos com tomate

Teve que preparar almoço pra família inteira por causa do Dia dos Pais? Perdeu a criatividade e não quis fazer a mesma sempiterna carne moída com molho de tomate para acompanhar o macarrão? Eis um acompanhamento totalmente acidental que eu criei num assalto tormentoso de fome, aproveitando os champignons que estavam quase vencendo na geladeira. Fica muito bom com arroz, macarrão ou mesmo pão. Também funciona perfeitamente como recheio de lasanha: basta acrescentar queijo. Trocar o tomate por tomate-cereja fica realmente interessante por causa de seu gosto mais doce, em comparação com o convencional.

ANTEPASTO PICANTE DE CHAMPIGNON E TOMATE

Ingredientes:

200g de champignon
1 tomate cortado em cubinhos(ou uma quantidade equivalente de tomate-cereja, se preferir)
1 colher de sopa de molho shoyu
2 dentes de alho, cebola e azeite para refogar
Lascas de gengibre (a gosto, mas recomendo no máximo 5)
Pimenta do reino a gosto (no meu caso, 1 colher de café no máximo)
Sal a gosto
Limão para temperar depois de pronto

Modo de preparo:


Em uma panela, coloque um pouco de azeite com 2 rodelas de cebola e os 2 dentes de alho moídos. Aqueça a fogo baixo e mexa um pouco até começar a dourar e cheirar. Despeje os champignons e os tomates com o molho shoyu. Mexa mais. Quando o vapor começar a subir e as coisas começarem a esquentar, despeje o gengibre, a pimenta e o sal. Coloque mais rodelas de cebola, a gosto, se preferir (eu prefiri). Mexa mais até esquentar bastante e o champignon pegar o gosto das especiarias. Você também pode viajar legal e acrescentar outros temperos. Quando estiver bom, desligue e sirva ainda quente, temperado com o limão (1 colher de sobremesa no máximo) e misturado ao macarrão, ao arroz ou em uma tigela, para os convidados comerem com pão.

Agora é só esperar os elogios daqueles parentes chatos que você nunca viu na vida (os mesmos que gostam de dizer o quanto você cresceu, inconvenientemente perguntam pelas namoradinhas etc), dizendo que a receita ficou uma maravilha. Aproveite o limão que sobrou e, com os outros limões da geladeira, faça uma jarra de suco e sirva bem gelado, porque os convidados mais fracos vão achar picante demais.


Foto tirada e editada por mim, em homenagem ao Dia dos Pais. Porque as ovelhas negras são sempre mais laranjas.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Silêncio

Andaram em silêncio e sem dar as mãos, porque o momento doloroso não lhes oferecia nada que apaziguasse o orgulho naquele interior seco, e a mágoa e o rancor entrando, entrando, entrando. Era quase um rasgo no baixo ventre e as tripas desenrolando lentamente pelo chão, como tecido que descostura fácil, e o coração só bombeando teimosia atrás de teimosia. Foi a despedida então que caiu como uma luz celeste por ter elucidado enfim que o amor deles era maior que toda aquela besteira.

domingo, julho 27, 2008

Eu gosto muito do papai

Eu gosto muito do papai. Ele é muito bom, muito bom mesmo. Papai possui um escritório de várias representações, papai representa várias indústrias junto ao comércio de Brasília.

Papai é magro, forte, muito e muito corajoso. Nós todos lá de casa gostamos muito mesmo do papai. Papai nos leva a passear, papai nos leva ao clube, aos cinemas, aos parques de diversão. A muitos lugares papai nos leva, e além disso papai nos leva ao cinema, para o parque de diversão, para o clube. Papai é muito bom.

Papai compra brinquedos para nós. Compra roupas, compra muita coisa, é sim, vocês pensam que papai não compra? Compra sim. Quem é Papai Noel, hein? É o nosso pai, não é? Pois então não é ele que nos dá os presentes que nós pedimos? Então, estão vendo como papai é bom? Viva o dia dos pais!

(redação escrita pelo meu pai quando ele era criança, em data imprecisa)

terça-feira, julho 22, 2008

O Grito


Acordou cedo aquele dia e examinou o rosto fundo e embaçado no espelho; sua miopia devia ter saltado uns 5 graus, mal enxergava. De repente soube divisar algo parecido com uma porta na superfície daquele vidro que sempre o andara observando. Sim, uma porta escura cuja profundidade sinistra prolongava-se para o além. Pensou se deveria continuar olhando aquele filme que lhe projetavam por ali. Sim, por que não?, um filme é totalmente seguro e o espectador sabe que nada vai acontecer com ele, porque é só uma representação. Ademais já tinha 20 anos, em breve seriam 22, depois 25, e ele seria um adulto, e viajar na maionese, nunca mais; sete, quatorze, vinte e um. Tinha um gosto estranho na boca que sem dúvida era da sopa do dia anterior, mas não saberia precisar se era do sal, do alho, da pimenta ou do gengibre. A porta agora mostrava um universo paralelo, um país das maravilhas, talvez?... O gengibre era como mandrágora e a pimenta era docinha, docinha. Olhando-se naquele espelho, naquele banheiro frio, sentia-se duro e solitário tanto quanto vai se sentir a última barata na Terra, depois da Terceira Guerra Mundial. Não mais quis hesitar, montou na pia belíssima de granito rosado e atravessou, como as personagens clássicas, que, nas histórias clássicas, simplesmente atravessam.

dica da semana:
o novo CD da Carla Bruni é legalzinho, mas começo a escutar e lembro que as músicas podem ter sido inspiradas no Sarcozy, e de repente fica tão nojento.

sábado, junho 21, 2008

Samuela


Samuela era a menina mais erótika da turma. Erótika, com k mesmo. Falava com uma voz baixa e derretida, que não eram gemidos porque ela não era vulgar. Arranjava um penteado diferente para cada dia, por vezes coisas muito complicadas, com fios que se amarravam atrás e mechas suspensas no ar, que lhe deixavam com cara de lua; era muito criativa, mas ela sempre tomava o cuidado de deixar a franja ocultar-lhe um pedaço do rosto, o que a deixava ainda mais misteriosa, erotikamente misteriosa. A pele era normal, sem maquiagens. Tinha também um arsenal complexo de botas aveludadas que fariam inveja a qualquer moça de sua idade. Quando não usava saias acima do joelho, optava por saias muito acima do joelho, indecentemente acima do joelho. Não gostava de decotes: seu segredo mais desejável estava na parte baixa do corpo. Sentava-se sempre com as pernas cruzadas, atiçando a curiosidade dos meninos que a todo custo tentavam ver sua desirrê. Não tinha celulites, apesar dos refrigerantes e chocolates que ela sempre trazia para comer durante as aulas. Chicletes? Sim, claro, vários por dia. Seu maxilar irrequieto era a única coisa que quebrava o silêncio – e a atenção – dos outros alunos. Quando falava, os gestos eram moles também, suas mãos dançavam languidamente no ar, como as de um maestro com sono, e ao final de cada frase ela as repousava sobre a mesa, e os dedos caídos apontavam invariavelmente para os joelhos. Aí os meninos olhavam dos dedos para os joelhos, e dos joelhos para as pernas, e das pernas para a minissaia. Da saia, para algum recanto sombrio lá dentro. Samuela era um ciclo interminável.

terça-feira, junho 10, 2008

Odisséia porca


É, não tinha água no ICC e eu não conseguia lavar a mão de jeito nenhum. Eu já estava nojento de tanto tentar abrir aquelas torneiras grudentas, sem falar que havia mijo no chão em todos os banheiros e as privadas transbordavam bosta.

Moscas por todos os lados.

E como no Natural o almoço era aquela lasanha nojenta de abobrinha com soja, eu fui vasculhar o RU em busca de comida melhor e uma torneira que funcionasse. Foi um almoço solitário e desolador, como o sempre é por aquelas bandas, e, no final, dois pedaços contidos de melancia. Claro que depois eu me levantei, furei fila e peguei mais melancia. Melancia nunca é demais.

No final do dia, a água voltou e as privadas continuavam amarrotadas, e tinha um vômito no chão.

foto retirada do postsecret.

domingo, junho 08, 2008

Festa Junina

Caaaaaaaara! Ontem foi festa junina. Como eu amo festa junina! Mas aquela, velho, tava muito cheia, tinha gente saindo pelo ladrão. Então eu comprei 14 reais em fichas, o que é MUITO, porque com um tempurá já dá pra alimentar a família inteira, mas enfim. Então eu entrei na fila para comprar canjica. Não era uma fila, né, era um monte de gente amontoada e se esfregando, aquele bando de mulher querendo comer bolo de chocolate, ou bombom de sorvete (quem precisa de comida típica?). Aí chegou uma mulher muuuuito perua, hahahaha!, "peraí, Fulana, meus meninos querem pedir milho verde!". Os diabos dos meninos eram como dois lêmures azedos, muito loiros, agarrados à mãe como uma prole desmamada, os olhos verdes e remelentos saltando das órbitas à procura do alimento sagrado. A canjica chegou antes do milho que a perua pediu, e eu senti o perfume de amendoim com canela da vitória eufórica, mas aí eu, eufórico, derrubei tudo nos meninos da mulher.

Foi a última visão da minha vida em liberdade: os lêmures desmamados da perua derretendo com a canjica, toda aquela pele de porcelana desmanchando no chão, um choro mimado e estridente, o fim, o fim, o fim.