segunda-feira, junho 02, 2008

Papo de adulto

Rafael diz:
Sabe sentimento de derrota absoluta?

Fláudio! atarefado diz:
Seeeei, de que o mundo inteiro nos abandonou, aí o céu fica especialmente cinza, uma névoa seca recobre as ruas desertas, um tubo de feno aparece rolando ao fundo, como nos desenhos de velho oeste, e não existe nenhum ônibus vazio em que podemos nos sentir sujos e abandonados, porque os ônibus estão em greve.



Agora posso dizer que sei o significado de derrota absoluta.

crédito da foto: Louisville Joe

sexta-feira, maio 30, 2008

Sentido da vida

"Come with me, my love
To the sea of love
I wanna tell you how much I love you"
Cat Power

A mulher se escorou no balcão e esperou ser atendida, morta de tesão. Naquele momento ninguém seria capaz de saciar sua vontade – somente ele. Perscrutou ávida, na vitrine, aquele que melhor lhe agradava, mas todos eram lindos e maravilhosos, todos eram SÓ PARA ELA, MEU DEUS!, quase não cabia em si de tanta alegria por haver tantas opções...! Meteu a mão nos bolsos para ver quanto dinheiro ainda tinha, e se de repente não pudesse pagar por um luxo daqueles? Seria a pior morte de todas. Mas aí veio o rapaz de jaleco branco meio desabotoado, ela fez seu pedido e EM BREVE SERIA FELIZ NOVAMENTE! Logo, logo poderia encontra-se com aquele que daria sentido à sua vida de prazeres, logo poderia jogar-se nos braços da melhor invenção do homem: o chocolate.

Então o pedido chegou e ela comeu comportada.

domingo, maio 18, 2008

Meu tempo dos outros

"Trabalhei com recreação de crianças terminais que sofriam de câncer. Num dia, uma criança estava brincando comigo e, no dia seguinte, ela não estava mais. Eu tive a noção do irreversível, da passagem do tempo, da finitude. Ali conheci a morte de perto".
- Ney Matogrosso

Se meu tempo for extremamente curto, que a vivência seja extremamente longa, intensa e afável. Que eu arranje mais brigas para comprar, mais pessoas para ajudar, mais lutas e mais cascas para perder. Que eu aprenda a ser uma pessoa desmesuradamente boa, porque o mundo não é bom, e que eu perpetue por aí todo o amor fecundo que eu soube cultivar. Que eu saiba enrijecer sem perder a ternura, e que eu ganhe alguma recompensas, porque ninguém é de ferro!

E no fim o meu tempo é o tempo dos outros que caminharam comigo.

sexta-feira, maio 09, 2008

Perfil: o Gilson da banca


A banca do Gilson é o maior estabelecimento do gênero no campus da Universidade de Brasília. Localizada na entrada do Centro de Vivências Sul (UDFinho), está ali desde 1977. O dono, Gilson Queiroz, saiu do Rio Grande Norte ainda bebê, chegando à capital em 1961, junto aos sete irmãos, o pai e a mãe, que já mantinham uma banca de revistas. Gilson e mais dois irmãos herdaram o talento para o comércio – os outros enveredaram por caminhos diversos, como a enfermagem e o jornalismo. Antes de ele abrir sua banca na UnB, seu irmão já era dono de uma em Sobradinho.

Antes de fixar-se no local onde está hoje, a banca do Gilson passou por diversos pontos do campus. Já ficou ao lado do Restaurante Universitário (que também já mudou de lugar), ao lado da barbearia do Chico, e no local ocupado hoje pela Caixa Econômica (onde esteve por oito anos). A história da banca começou num tempo em que a Universidade era "praticamente deserta" de comerciantes. Enquanto era deslocado de um lugar a outro, Gilson vivenciou o crescimento e o fechamento da Só Livros, grande livraria que ocupava uma porção generosa da Ala Sul do ICC, além da abertura de um comércio finalmente organizado na UnB.

Nos tempos da ditadura, quando a banca era um "amontoado de grades", Gilson vendia escondido jornais alternativos, como O Movimento e O Pasquim. Hoje, reformada, a banca vende revistas nacionais e importadas (desde eróticas às de arte e design), jornais, gibis (líderes de vendas), livros, incensos, camisetas, doces e refrigerantes. O tempo lhe trouxe duas certezas: a de que as assinaturas de revista esmagaram as vendas em bancas , e a de que a consciência política dos jovens piorou, mesmo depois da ocupação da reitoria. Como forma de compensar a venda irrisória de revistas, Gilson precisou diversificar-se: é por isso que, hoje, bancas de jornal vendem também refrigerantes.

O tempo ainda lhe deu a capacidade de manter relações duradouras com seus clientes, além da oportunidade de ver gerações inteiras passar pelo estabelecimento. Houve casos em que clientes seus casaram e tiveram filhos, que tiveram filhos que estudam hoje na UnB. Além de conversar com os clientes, sorrir e comentar pouca coisa sobre as últimas notícias, Gilson gosta de ligar o som e ouvir música erudita, jazz ou blues enquanto trabalha. "É de berço", justifica-se. Gilson é espírita, e o que a religião lhe ensinou,junto aos 49 anos de vida, foi que "ninguém é conhecedor da verdade. O que importa é respeitar as pessoas, além de sorrir para a sorte abrir".

confira mais no campus online

quinta-feira, abril 24, 2008

Carta de amor

Meu bem,

Há três dias aquele caroço de alguma-coisa jaz no chão do banheiro. Aquilo parece uma barata. Eu entro no banheiro, e, mesmo antes de acender as luzes, vejo o troço no chão e acho que é uma barata. Sempre levo um susto. Você ia gostar se eu deixasse uma azeitona preta dentro da sua caneca preferida e você achasse que era um cocô de bode? Por que você não tirou o negócio de lá ainda? Isso é típico seu: sair pela casa espalhando as coisas como se elas fossem perfume, por mais horrendas que sejam.

Outro dia cheguei tarde e você ainda não tinha dado um jeito nas toalhas molhadas. Você sai do banho, usa todas as toalhas disponíveis e joga tudo no chão! Emboladas, ainda por cima. Você podia pelo menos estendê-las no chão, pra secar mais rápido. Mas NÃO! Eu chego e elas estão úmidas. O pior é que eu sempre acho que elas estão úmidas de suor, porque você aprendeu com aquela sapa da sua mãe a enxugar a testa toda hora com qualquer toalha que aparece na frente. Credo!

Um último lembrete: tem suco de uva na geladeira, daquele que você gosta. Eu comprei. Mas peloamordeDeus não vá fazer baderna na cozinha, porque você adora abrir os sucos e, sem óculos, por causa dessa miopia idiota, você sai pingando metade da garrafa no chão, sendo que a Raimunda acabou de encerar o porcelanato. Tem biscoito também, mas não come tudo porque eu quero experimentar!

Nos vemos mais tarde, deixe a casa em ordem,
beijo.

quarta-feira, abril 16, 2008

Neurose como necrose

Vocês maldisseram o próprio nome e afundaram no egoísmo. Vocês pegaram a carne de suas carnes e engoliram-na palpitante, e derramaram seu sangue no chão. Vocês confundiram amor com miséria e julgaram os outros. Interpuseram obstáculos onde não os havia, e erraram fatalmente ao tolhir a própria liberdade. Vocês desfizeram os quebra-cabeças e andaram para trás; retrógrados!, vocês se extinguiram pouco a pouco. Vocês não enxergam a liberdade porque estiveram cegos desde sempre; admirar a luz verdadeira lhes custará os olhos. Vocês estão confusos. Ah, a aprendizagem será dolorosa, difícil, e lhes comerá a pele lentamente, como a pior das torturas. Porque vocês procuraram intensamente a Deus, mas só acharam a dor, a tristeza e a morte.

quinta-feira, abril 03, 2008

As fotos de Carlota

Alojada logo abaixo da janela, Carlota desviava a cara feia da luz inclinada, alaranjada e quente, bonita, mas quente; preferia ficar ali a fugir totalmente do calor, porque era ali que podia se redimir, chorando à vontade. Pegou o pequeno baú verde e envelhecido, lotado das coisas dignas de se guardar em baús, como um refugo de memórias assustadas que devem ser esquecidas, mas para Carlota funcionava como uma catarse por meio do passado. Abriu o caixote e olhou as fotos sépias, carcomidas, algumas meio queimadas, mas quase invencíveis ao tempo, porque Carlota até podia morrer, mas as fotografias ficariam para sempre. Olhou uma a uma, seguindo o ritual semanal, e como sempre tudo começou com um tremor sutil, depois a mão resfolegou e quase tombou o baú; primeiro a mãe, o pai, a avó, o avô, os filhos, o marido, todas as pessoas que já estiveram com ela, e que agora caíam para os véus da eternidade, e Carlota foi acometida de tremeliques violentos que lhe sacudiam o penteado horroroso, o batom escandalosamente vermelho borrou ao prenúncio de um gemido, o nariz fungou com um barulho que os vizinhos gostariam de evitar, e as lágrimas respingaram enfim como um gozo quente e descontrolado, escorrendo pela janela e evaporando ao encontro cálido com a luz inclinada.

Até que Carlota parou de tremer e suas tristezas equivocadamente solitárias voltaram ao pó.