No chão do meu banheiro aconteceu cena das mais dramáticas. Na borda do tapete já encardido, perdidas na imensidão lisa do azulejo frio, duas formigas esbarravam perigosamente na linha que separa a vida da morte. Ou melhor, uma já estava morta. A outra é que não sabia o que fazer com o cadáver que a perturbava; pobrezinha, percorria o azulejo inteiro numa velocidade que eu nunca vi em formigas, desesperada, e pegava o corpo morto da outra, trazia mais para perto do outro azulejo, depois voltava, e ia de novo. Talvez chamasse por mais outras, mas ninguém veio. Devia estar roída por dentro, toda envolta na dor da perda.Tão humanas, as formigas. E nós, tão elas.





